Sem dois não tem um

Parece que era uma adolescente, quando pensava essas coisas. Aninhada num vagão de trem, escondido o rosto com algumas espinhas atrás da uma franja desgrenhada. Inteirinha no meu mundo, pouco me incomodava a marmita do vizinho, o barulho incômodo do salgadinho re vibrando na minha órbita com seu crunch-crunch. Não havia eletrônicos, tudo tocávamos com as mãos; nos tocávamos e assim sentíamos. Meu corpo em transformação era minha grande novidade e descobrir o corpo e prazeres do outro, e no outro era, também resultava muito estimulante. Ainda não havia entendido que minha alma e minha mente estavam seguindo o mesmo destino; sequer havia alma e mente pensados, refletidos...Havia conflito em mim, meu corpo pulsava, buscando algo desesperadamente. Algo que iria aparecendo ao longo dos anos-muitos-que se seguiram. Muito tempo depois descobriria que apenas estava buscando eu, eu mesma.

Aquele trem me levava às terças e quintas para o Essex Institute onde cursava semanalmente as aulas de inglês, as quais frequentava estoicamente motivada por misto de tédio e necessidade. Na aula o estudo fluía automaticamente, sem grandes paixões pelo aprendizado da língua e eu era conhecida como Wendy (a sugestão foi da professora e eu infelizmente aceitei; Qual o motivo usar nome fantasia numa aula real?...pedagogia para o ensino de línguas nos anos 80 ou metodologia criativa exclusiva do Essex Institute?)

Se as aulas não causavam em mim grande motivação, a viagem de trem até elas era de fato fascinante. O hall da estação Retiro já naquela época me parecia belíssimo e o movimento de apressados cidadãos, executivos e trabalhadores, diversidade viva andando pelo recinto barulhento exercia grande magnetismo. Um excelente lugar para observar os outros, pensava, e ainda penso. Um bom momento para olhar em mim, o que de fato encarava.

Foi nos vagões do trens da linha Retiro-Tigre, onde comecei a desenhar-pela primeira vez- as contradições da minha vida. Foi ali, sentada na poltronas móveis e duplas, não lembro agora se encapados em courino verde ou revestidos de fórmica bege onde, embalada pelo característico som metálico das rodas deslizando nos trilhos, quando o Universo felizmente materializou-se nos meus pensamentos. Papéis e textos eram rabiscos com avidez, quase a mesma de hoje. Pensamentos plasmados com altas doses de dúvida. A dualidade em mim começou a aparecer nos desenhos: altas montanhas refletiam-se em depressões profundas e vice-versa. O côncavo e o convexo eram conceitos brilhantes e visíveis. A mente, o corpo a alma e o espírito: uma tetralogia inquietante. Quanta luz e quanta escuridão conseguem conviver simultaneamente?

Too much amor é equivalente a too much dor? Onde esta o ponto de encontro, de equilíbrio entre estas forças vitais opostas e complementares?

Sentada, sozinha e acompanhada de mais três desconhecidos (um ao lado e dois na minha frente) a vida atravessava minha pele com força! Atravessava ou passava? Estava passando pela vida, venda ela passar? Como doía ser atravessada por ela...como doía somente vê-la passar.

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